Games, anime e caos.

Minicrise de Ansiedade

Elétrico no canto do quarto, o pensamento que se desenha na madrugada reorganiza os dias turbulentos num diagrama simples, terrível, previsível.

Horizonte

O modelo millenial de fé no trabalho árduo e segurança financeira, legado estéril dos boomers, de fato falhou. O mundo do trabalho mudou, está ruindo e as pessoas estão envelhecendo sem contar com os frutos do esforço de uma vida — empobrecendo e se cansando ou já pobres e exaustas, não terão nada na velhice, sabem muito bem disso e já não negam que não será possível, nem mesmo fará sentido, se aposentar.

Ponto sem retorno

Penso na crise social decorrente, mas ainda mais na dificuldade de elaborar a saída quando a nova força de trabalho, representada pela geração Z e, fazendo outro recorte, pela grande massa de informais e precarizados, se vê divida entre um niilismo imobilizado e delírios de empreendedorismo individual.

O niilismo e não-conformidade da geração Z ao paradigma atual do trabalho sejam, talvez, respostas honestas e até certo ponto corretas. Um fenômeno que chegou atrasado, porque nós millenials já tínhamos que ter feito essa grande greve que chamam hoje de great resignation ou pelo menos, mais pontualmente, tínhamos que ter inserido o também recém-batizado quiet quitting como pesadelo do mercado em vez de seguirmos os conselhos de Sísifo para obter o sucesso. Deixamos na mão de pessoas mais novas dizer o óbvio, o grande não, e elas generosamente assumiram essa responsabilidade sem ganhar nada além de críticas. Seria muito injusto cobrar delas uma solução para uma crise latente que os millenials preferiram ignorar enquanto brincavam de LinkedIn. As pessoas não aguentam mais trabalhar porque trabalhar não dá retorno, só adia, com sorte, a fome e a rua, um diária de cada vez, e nada se configura ainda como solução para a renda dos indivíduos e famílias e só se começou a discutir isso como algo realmente gigantesco e preocupante quando a Gen Z começou a falar o óbvio na nossa cara ou a simplesmente calar porque não perdeu o próprio tempo indo falar com gente que se dedica a um emprego que não permite comprar um imóvel, se aposentar nem ter filhos sem fazer um novo milagre a cada fim de mês.

Século XXI

A renovação da força de trabalho já não está acontecendo e a partir de determinado horizonte de eventos, as empresas e corporações serão lançadasao abismo. O Estado normalmente entra para salvar o capital nessas horas, o cenário político é manobrado para que isso seja possível e as consequências sociais são pesadas. Tendo em conta que o genocídio sistematizado por parte do Estado é uma ferramenta já estabelecida, não acho difícil imaginar um cenário em que o assassinato em massa da população é utilizado como medida de controle político e econômico. Renda mínima para uns, sentença de morte para outros.

Shopping global

A internet foi profundamente transformada, no contexto da pandemia, num grande shopping center ultraotimizado por algoritmos que criam dependência química nas pessoas e por uma lógica generalizada de transformar todo processo de uso possível da internet em funil de vendas. Você não entra mais na internet sem ser conduzido pela mão a encher um carrinho de compras, inserir os dados do seu cartão de crédito e finalizar o pedido. Até consegue, sendo muito objetivo e determinado, mas é difícil. A ferramenta básica de acesso a qualquer coisa, o hub principal, o Google, foi completamente pervertido por uma IA incompetente e por resultados patrocinados, de tal forma que é difícil achar um resultado de busca que não seja anúncio. O resto da internet é loja, os jornais que vão quebrar com scraping do Gemini e as redes sociais que viraram o lixo do lixo tóxico e, claro, uma grande feira.

2 + 2 = 5

Quem dera nosso fim se desse de fato por uma inteligência que nos suplantasse, punição divina com sabor ateu. Pusemos em um pedestal um modelo de cópia baseado em compreensão estatística cujo valor é absolutamente especulativo, tornado ubíquo pelo infinita potência do marketing, e dependente do roubo assumido de TODA a propriedade intelectual da internet e energeticamente insustentável, pra não dizer delirantemente suicida. Não cria nada novo, só recicla, e só convence os consumidores já conformados com a ideia de que tudo já foi criado, nos resta apenas a nostalgia e a reciclagem de franquias de produtos culturais.

A adesão massiva à coisa foi não um tesão tecnológico do público, mas um movimento forçado goela abaixo, ainda que (mal) temperado, com instalação compulsória e atualização de contratos jamais lidos ou impossíveis de recusar sem se ostracizar, em tudo que foi possível instalar a bendita. Fora a grande campanha promovendo a panaceia — a mesma campanha de sempre, desde o mais remoto apotecário, sempre delirante, sempre eficaz. Pequena tese: não havia mais nenhuma novidade pra vender, saturou, o iphone não tem como ficar melhor, não há como extrair mais valor real da tecnologia, então dinventou-se alguma coisa pra alavancar as vendas, entraram no almoxarifado onde o cinema 3d e os nfts voltaram a ser guardados e acharam os LLMs, puseram uma roupa de festa e lá fomos nós.

Deus nos livre e guarde de viver em tempos de transição — tarde demais.

Ninguém sabe bem o que está fazendo porque estamos num momento de crise e transição. As redes estão caóticas e começando a ser abandonadas, o Google me lembra a pessoa que saca o FGTS pra torrar tudo em bet. Politicamente seguimos no século XX, as pessoas não tem mais emprego e quem é autônomo ou tem empresa e se alinha ao zeitgeist tentando vender coisas ou serviços não consegue ter certeza se está construindo algo sólido ou plantando suas fundações em uma bolha que vai estourar a qualquer momento.

Amém .

Noite escura

Ainda assim, algo de esperança resiste ao fim do mundo e ao som dos tiros que batem ponto antes de raiar o dia para que não seja possível esquecê-los. Ciumenta, a violência do Rio, em sua trama narcísica que insiste em nos colocar todos a dançar o apocalipse particular de uma cidade que não cansa de si.

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